sábado, 4 de junho de 2011

A arte de fechar a porta


Há quase dois anos, abro e fecho a mesma porta incontáveis vezes ao dia. Toda vez que eu chego aqui, lembro de que não posso abri-la com muita força, porque, do outro lado, existe uma sala muito pequena e uma estante que, repleta de bugigangas decorativas, pode vir a ter sua arte destruída com um solavanco agressivo de Helena.

Logo que eu vim morar aqui, era sempre o mesmo drama diário: chegava, com pressa, e abria a porta com a mesma voracidade que queria jogar minhas coisas num canto e descansar. Todo dia era a mesma chateação: o ato de entrar em casa era seguido de arrumar os "bibelôs" da estante e, depois, partir pra vida dentro de meus pouco metros quadrados privados.

Demorei muito tempo pra assimilar a informação de que, toda vez que chegasse em casa, teria que abrir a porta com jeitinho, pra não derrubar todos apetrechos decorativos que me esperavam do outro lado. Foram meses e meses brigando com o "outro lado". Pensei, muitas vezes, em me livrar dos enfeites, chutar tudo,ou, quiçá, mudar a estante de lugar.

Com o tempo, a raiva e a ansiedade passaram. Chegou o dia em que, sem notar, eu aprendi a abrir a porta sem danificar a organização do cômodo atrás da porta. Não houve cobrança, muito menos contagem cronológica: simplesmente aconteceu.

Agora, toda vez que eu chego, repito o procedimento. Calmamente. Sem pressa. Olho pra frente: tudo intacto. Posso seguir meu caminho. Menos com o que se preocupar.

Dias desses parei pra pensar na cautela que eu adquiri com a "velhice" e fiquei feliz. Nunca pensei que eu, antes desbravadora e chutadora de portas, chegaria ao ponto de agir e pensar, concomitante e instintivamente.

Portas ensinam mais sobre a gente do que poderíamos imaginar. Quem diria.

8 comentários:

Sandro Ataliba disse...

Mais uma prova de que a vida ensina, e em cada detalhe. Uma porta foi sua professora.

Anna Zipporah disse...

parabéns!
suas crônicas são muito boas, muito bem escritas...

Thaís Alves disse...

É verdade, a medida que a idade vem chegando, a cautela parece vir de mansinho... que mais portas se abram para este caminho! rs bjs

Eduardo Santos disse...

Olá Helena. Quem diria que uma porta também nos pode ensinar algo na vida! Mas é apenas uma parte da verdade, sabe isso. Nós é que vamos aprendendo a refrear os ímpetos, daí surgir um discernimento mais inteligente e de bom senso, em relação às pessoas e/ou às coisas. A vida é mesmo assim, feita de experiências, feliz daqueles que as sabem aproveitar, não é? Tudo de bom.

Anna Carvalho disse...

Olá,
achei seu blog muito bonito e já estou em seus seguidores.
Se puder visite o meu:

http://despertardocoracao.blogspot.com/

beijos.

sonia disse...

Lendo seu texto lembrei-me de um ex-chefe suiço, com quem trabalhei por muitos anos, pessoa muito educada, mas tinha uma atitude que me deixava perplexa. Quendo ele queria privacidade ao entrar em sua sala, batia a porta com força. Pra falar a verdade, eu nunca o vi fechar a porta, só bater. Essa atitude destoava de todo o resto, pois apesar de ser uma pessoa de gestos rápidos, era muito gentil e educado.

Fernanda Rodrigues (Fê_Notável) disse...

A vida nos dá muitas lições. A gente que tem que ser sensível o suficiente para percebê-las... essa é a parte mais difícil!

Bom que você conseguiu não só captar a mensagem, mas também transmiti-la a todos nós!

Adorei o blog! :D

Guilherme Navarro disse...

Nossa, fiquei extasiado, muito tempo não encontro um blog assim!