quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

Saga



A primeira vez que te vi


Tu tinha um cigarro na boca. Era inverno. Ventava e chovia lah fora. Tu vestia uma jaqueta e uma calca jeans igualmente surradas. O barulho e as vozes nao pareciam te importunar: tragava teu cigarro como se nao tivesse ninguem ao redor. Nem a musica dos Stooges te fazia perder a pose. Tu continuava ali: inerte. Tu e teu cigarro. Como se nao existisse um outro mundo alem do teu. Nao sei bem se foi nesse instante em que eu me apaixonei. Ou se foi depois. Soh sei que eu nunca vou esquecer aquele momento em que tudo parou. Pelo menos pra mim.

Eu nao era a unica que te notara. E tu sabe muito bem disso. Foi nascer bonito. Fazer o que. Sei que nao foi o rosto a la Gael, muito menos o jeito displicente do Luna. Foi o modo como tu tragava aquele cigarro. Como se fosse o unico no mundo. O primeiro. O ultimo. Sedento. "Imagina aquele homem comendo uma mulher", eu provavelmente pensei. Foi tudo culpa do cigarro. Tua devocao a ele. Nao foi o cabelo, certamente nao foi o sorriso tambem. Nem teu charme contagiante. Maldito cigarro. Se tu nao fumasse, minha vida teria rumo. Philip Morris, esse eh o culpado.


A primeira vez que te tive


Nao foi o cigarro dessa vez: foi tua voz. Forte, mas aveludada. Como um beijo sussurrado no ouvido. A primeira palavra proferida e consegui te imaginar cantando "Something" ao peh do meu ouvido. Nao restavam mais duvidas. Passara no teste. Sempre soube que o homem da minha vida seria aquele que cantaria a musica do Beatle George pra mim. Dito e feito. Era tu. Ninguem mais. Afinidades. As horas passaram como se fossem segundos. Eu nem lembro mais quem tomou a iniciativa. Soh sei que eu fui parar na tua cama. Melhor ainda: nos teus bracos. E nao teve Beatles no ouvido. Nem precisava. Senti-me como o cigarro daquela noite: devorada. E, pra mim, isso bastava.


A vez em que te conheci


Ventilador ligado. Calor incandescente. Tu nao tava legal, eu lembro. Tinha uma cerveja na geladeira. Um cigarro no maco. O cinzeiro, cheio. E tu, cheio de mim. "Nao dah mais." E 5 minutos depois, eu tava na rua. "Toma!", tu me disse, entregando aquele ultimo cigarro, "tu vai precisar." E fechou a porta. Fechou tua vida pra mim. O ultimo cigarro foi fumado na frente do teu prédio. Na escadaria. Eu, o Philip e as lagrimas. Na rua, o silencio contrastava com a bagunça dentro de mim. Ainda era noite ou jah era dia? E a cada tragada, eu te sentia indo embora. Era como se tu estivesse, gradativamente, desaparecendo da minha vida. As cinzas caindo no chao. Um pouco mais de lágrimas. Fumei ateh o filtro na esperança de te ter um pouco mais comigo. Acabou. Joguei a bituca no chao e nao olhei pra tras. A duvida doi menos que a certeza.


A ultima vez que te vi


Tu jah tinha voltado pra ela, presumo. Tu usava a mesma jaqueta daquela primeira vez. E os mesmos oculos que eu tanto amava. Te vi na rua. Tu nao me viu. Pra falar a verdade, nao fiz muita questao de ser vista. Te deixei passar. Livre. Sereno. Feliz. Queria gritar, correr em tua direcao, te dizer que te amava. Que ainda tinha muito pra gente viver. E passou um filme na minha cabeca. Te vi atravessando a rua pra me abracar. E dizer que tudo ia ficar bem. Que juntos nos eramos melhores. Acordei. Tu passou por mim. Como um furacao que levou o melhor que tinha em mim. Meus sonhos. Planos. Sorrisos. E deixou a amargura e o arrependimento. Vai ser no ouvido dela que cantaras "Something". E eu soh tenho que aceitar.



A vida sem ti


Uma pessoa fica viva enquanto a gente lembra dela. Hoje eu enterrei a parte de ti que ainda me atormentava: parei de fumar. Nenhunzinho mais. Os cds dos Beatles, esses eu nao me desfaco nunca. Assim como o Rob de "High Fidelity", isso eh parte de mim. Soh minha. Tu nao vai estragar isso tambem. Hoje eu rezei tua missa. 3 anos. Nunca mais ouvi de ti. Teus amigos nao comentam nada. Acho que eles tem medo. Bobagem. Jah passaram 3 anos. Ouvi dizer que tu nao tah mais com ela. Parece que tu te encheu dela mais uma vez. Previsivel como sempre, tu es. Nao sei se fico feliz ou triste: sinto pena. De mim - nao dela, muito menos de ti. De mim porque te deixei entrar na minha vida. Por nao saber. Porque se eu soubesse, eu nao teria entrado nessa. Mas agora eh tarde pra lamentar. A verdade eh que eu senti muito tua falta. Nunca entendi nada. Nunca te entendi. Tu nunca me conheceu. Nem quis tambem. Mas hoje tu morreu pra mim. Hoje foi o fim. E, olha soh, o Guto, aquele mesmo, o que nos apresentou, veio aqui hoje. Trouxe ceva e um violao. Adivinha o que ele tocou pra mim?

Ps: ele nao fuma! dessa vez vai ser diferente!

2 comentários:

Camila disse...

LINDO! LINDO! LINDO!
Não consegui parar de ler. Viciante.
Amo!

Helena disse...

Nao contavam com minha astucia!